APRESENTAÇÃO

Um caso de vocação 

Edegardina Ribeiro Tavares, ou dona Dega, como a chamavam Chacrinha (Abelardo Barbosa) e outros amigos antigos da família, dizia que seu filho Italo, nascido no dia 12 de abril de 1923, sempre quis ser militar. Mas era muito magrinho e não tinha o peso necessário para ser aceito. De forma que foi às custas de exercício e dieta a base de muita banana que ele conseguiu ganhar algum corpo para realizar seu sonho, começando pelo Colégio Militar, onde fez todos os estudos.

O único irmão dele, Hélio, que era três anos mais velho, morrera de desinteria bacilar aos sete anos de idade, fazendo com que Italo fosse criado praticamente como filho único. A exceção seria Marcília, que dona Dega passou a criar ainda criança de colo e da qual Italo havia sido escolhido padrinho. Depois, dona Dega adotaria informalmente também mais duas crianças: Rodrigues e Rita.

Italo, entretanto, era o único herdeiro de Octavio Diogo Tavares, formado em Medicina, Direito e Contabilidade, mas funcionário público de carreira. Era a possibilidade de manter o sobrenome de origem portuguesa. Octavio, filho de Augusto Diogo Tavares, que era filho de Manuel, filho de José Diogo Tavares.

Não é difícil imaginar o que deve ter significado para aquele casal o embarque do seu único filho natural vivo para a guerra. Ao vê-lo partir, dona Dega chorou, rezou e provavelmente fez promessas a todos os santos. Mas não havia jeito de mantê-lo em casa. Afinal, desde pequeno Italo sempre quis ser militar.

O diário que se segue foi escrito durante a campanha dele na II Guerra Mundial. O relato começa no dia 29 de junho de 1944, em meio aos preparativos para o embarque. Muito bem escrito e organizado, inclusive com documentos, desenhos e postais (reproduzidos nesta edição), o diário retrata de forma incrivelmente precisa a guerra do ponto de vista de um jovem tenente de 21 anos (nasceu em 12 de abril de 1923), suas amizades e paqueras, suas dúvidas, esperanças e frustrações. Em alguns momentos, é a inocência da juventude em contraponto com a crueldade do mundo. Em outros é a revolta diante da incompetência do comando brasileiro e da existência de um grupo de privilegiados colhendo as glórias da vitória no glamour da retaguarda e enriquecendo com desvios de suprimentos e muambas. É o relato sincero e sem concessões sobre a existência de dois exércitos brasileiros, o “saco A e o saco B”, dicotomia que até hoje persiste na própria sociedade do país. Soldados do mesmo exército, em pânico, se matando uns aos outros, glórias exageradas e outras esquecidas, miséria econômica e moral de um país devastado pela guerra.

Morte e vida. Tiros de canhão e bailes ao som de acordeão. É o dia-a-dia do pracinha brasileiro na Itália e a lição de que é possível colher coisas boas mesmo em meio ao caos e à desagregação. Tudo isto está neste sincero e comovente diário. Até mesmo um outro Ítalo, comunicativo e desprendido, que muitos gostariam de ter conhecido em vida e não puderam.

 

1.O pai Octavio Diogo Tavares, o avô Augusto Diogo Tavares

2.Sentado na mesa, com o irmão Hélio, falecido aos seis anos de idade, de pé na cadeira

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